
Por Fernando Retamal Médico veterinário e Consultor Técnico em Suinocultura
O desmame naturalmente pressupõe um forte stress para os leitões e com grandes implicações tanto na saúde como no desempenho. Esse manejo e o conjunto de mudanças de todas naturezas na vida deste leitão gera uma interrupção da ingestão de nutrientes. Este é o fator mais importante, porque predispõe o animal a sofrer de problemas intestinais. De fato, diversos estudos sobre infeções por E. coli realizadas nos mais conceituados centros de pesquisa no mundo mostraram que as consequências da infeção dependem da quantidade de alimento ingerida anteriormente à mesma: os animais que comiam abaixo das suas necessidades de manutenção ficavam realmente doentes, enquanto que aqueles que o faziam acima dessas necessidades apresentavam somente alguns sintomas. Portanto, o comportamento alimentar, principalmente após períodos de estresse é fundamental para a saúde dos leitões, e uma melhor compreensão do mesmo pode conduzir a sugestões para reduzir essas perdas consequentes.
Ensaios com sistemas eletrônicos de alimentação em leitões desmamados ao final da manhã, e com acesso ao creep feed antes do desmame, forneceram alguma informação nova sobre o comportamento alimentar. Com alguma surpresa, verificamos que os leitões não tiveram dificuldades em encontrar a ração: quase todos (95%) colocaram a cabeça no comedouro nas primeiras 4 horas após o desmame. Metade destas visitas, no entanto, não resultou no consumo da ração (fig. 1). A percentagem de visitas eficazes aumentou para 80% após 2 dias (fig. 1). Por isso, levou muito mais tempo para os leitões consumirem o equivalente a uma refeição (10 gramas; com base num consumo de 150-200 g/dia nos primeiros dias após o desmame e 15-20 visitas ao comedouro/dia): 45% dos leitões não fez isso no dia do desmame. Muito preocupante!

Figura 1. Visitas ao comedouro e visitas nas quais a ração desaparece nos primeiros dois dias
após o desmame de leitões que tiveram acesso ao creep feed durante a lactação.
Os dados também mostram claramente que os leitões param de comer durante a noite (fig. 1), apesar de, durante a lactação, serem amamentados frequentemente durante a noite. Isto sugere que os períodos de amamentação noturna são iniciados pela porca, mas que intrinsecamente o leitão tem um ritmo dia-noite. Os trabalhos realizados pelo pesquisador Torrey em anos anteriores avaliou acordar os leitões recém desmamados usando gravações de grunhidos de porcas. Porém, isto somente levou a um aumento do consumo de água em vez de ração e não teve efeitos positivos no desempenho.
Uma questão interessante é o que acontece nas primeiras vezes que o leitão interage e acessa o comedouro. Uma análise cuidadosa dos registos de consumo dos alimentos mostra que, na verdade, muito pequenas quantidades de alimento desaparecem nas primeiras visitas (96% dos animais geraram consumo de ração durante as 4 primeiras horas após o desmame), mas estas são muitas vezes seguidas por um período de recusa do alimento. Em quase metade dos animais avaliados, o consumo substancial de ração não é iniciado até ao dia seguinte. Este comportamento tem a ver com uma neofobia alimentar (aversão a provar alimentos novos). Isto é um legado ancestral que demosntra que em meio natural, os animais que estão com excessiva fome na selva quando confrontados com um novo alimento, só o provarão em função da fome que tenham. Só depois de “testarem” que este novo alimento é saudável, voltarão e comerão mais. Os padrões de consumo de ração dos leitões parecem corresponder muito a isto; muitos leitões consomem apenas uma pequena quantidade (gramas) de ração nas primeiras horas após o desmame, mas somente após a confirmação de que este alimento é seguro vão consumir uma quantidade apreciável e, finalmente, mudar para um padrão de consumo de ração regular. Observações feitas com leitões alojados individualmente encaixam com esse receio alimentar: normalmente 5-10% dos leitões irãoi recusar-se a comer durante dias, exceto uma pequena quantidade de alimento ao desmame. Isto terá consequências graves para a sua própria saúde. Só depois de mostrar que a ração é segura, misturando-os com outros leitões que comem ou, após proporcionar-lhes uma dieta completamente diferente, voltarão a comer ração. Se a neofobia alimentar, na verdade, desempenha um papel importante nos leitões recém-desmamados, então é mais uma vez um sinal de que é preciso ensinar os leitões a comer a sua dieta de transição antes do desmame e que precisamos fazer coincidir a palatabilidade da dieta pré e pós-desmame.
Avaliando o comportamento alimentar em leitões com e sem creep feed, mostrou que os leitões que tinham creep feed faziam o dobro das visitas efetivas ao comedouro (49 % aumentando para 73 % vs. 25 % aumentando para 35 %) durante o primeiro dia após o desmame (fig. 2).

Figura 2. Visitas com sucesso ao comedouro dos leitões, com e sem acesso ao creep feed na lactação.
A variação durante a noite é provocada pelo número baixo de visitas ao comedouro.
Estes dados também levantam a questão do momento do dia em que os leitões devem ser desmamados. O desmame à primeira hora da manhã dar-lhes-ia mais tempo antes do anoitecer para aprenderem a comer. Desmamar ao início da tarde pode dar ao leitão a oportunidade de provar a ração antes de anoitecer; na manhã seguinte já constatou que o alimento é seguro e pode começar com um padrão de consumo regular. Os ensaios para testar o momento ideal para o desmame são poucos: apenas um estudo de Ogunbameru (1992) em que o desmame ao entardecer resulta em leitões que eram quase 1 kg mais pesados aos 28 dias pós-desmame em comparação com os desmamados às 8 horas da manhã.
Outro fator decisivo ao consumo dos leitões está associado à sua hidratação. Somos todos sabedores que animais de um modo geral, quando desidratados, tem baixa apetite para consumo de alimento sólido. Nesta premissa, portanto, me parece que assegurarmos água de alta qualidade, em volume correto de oferta por fase de produção; livre de quaisquer patógenos contaminantes, e com características físico- químicas fisiológicas é uma atitude que deve ser de total prioridade em produtores que buscam desempenho e rentabilidade.
Pesquisas realizadas em nível nacional e internacional reiteram que leitões com peso inferior à 15 kg não apresentam plena capacidade de produção de suco gástrico e enzimas digestivas em sua plenitude. Isto se torna especialmente preocupante, quando avaliamos o pH de diversas fontes de água em nossa realidade. Válido destacar que entre as dezenas de análises laboratoriais realizadas durantes minhas consultorias técnicas, observamos um grande variabilidade de fontes de água em nosso Estado do Rio Grande do Sul, e por vezes, com valores absolutamente contrários à essa necessidade do leitão jovem. Portanto, acidificar de modo contínuo a água de bebida em fase de creche é uma atitude que assegura a oferta correta e fisiológica para o ótimo funcionamento digestivo destes animais em desenvolvimento. Essa qualidade somente pode ser obtida em águas de bebida que estejam sendo corretamente cloradas e acidificadas!
Abaixo uma ilustração que orienta as faixas adequadas de pH de bebida nas distintas fases de produção na Suinocultura:

Estas demandas por acidificação da água são facilmente confirmadas na rotina dos produtores que por vezes observam quadros de diarréia nos primeiros dias após o alojamento de um novo lote em seus crechários. O que se faz necessário destacar, é que essa acidificação deve ocorrer de modo contínuo e administrada por meio de equipamentos que assegurem precisão e a menor demanda de manejo humano. É de sabedoria de todos que vivemos um grande desafio na obtenção e retenção de equipes de trabalho na suinocultura. Desta forma, busque sempre adotar manejos que não exijam excessiva interferência e gerenciamento humano no processo.
E porque a oferta de cloro e de acidificantes deve ser de modo contínuo, ou seja, durante todo o período de presença dos animais no galpão?
Porque somente desta forma conseguiremos manter todo o trato digestivo modulado nas condições que beneficiam a presença das bactérias benéficas ao bom funcionamento do trato digestivo e principalmente o aproveitamento dos investimentos financeiros em uma dieta de alta qualidade, comuns nesta fase desafiadora de creche. A enorme quantidade de bactérias geradoras de doença digestiva, tais como E. coli, Pasteurella, Brachispira, Lawsonia, entre tantas outras, somente conseguem sua plena capacidade de multiplicação e geração de efeitos patogênicos negativos quando em ambiente de pH alcalino, ou seja, acima de 7,0. Por isso, manter acidificação contínua na água de bebida é um método eficaz de controle sanitário em sua propriedade – eficiente e rentável.
Ainda sobre os benefícios da acidificação podemos citar que quando adequadamente adotado, costuma estimular entre 20 e 30% no volume de água consumido pelo lote, e amplia a eficácia da cloração. Fatores estes, que juntamente com os ganhos de digestibilidade nutricional, impactam diretamente na rentabilidade econômica do suinocultor.
Conclusões
Os padrões de consumo de ração em transição mostram que os leitões têm pouca dificuldade para encontrar o comedouro. Entretanto, especialmente os leitões que não foram expostos ao arraçoamento na maternidade (creep feed), não reconhecem rapidamente a ração como um alimento. Aparentemente, provam-no inicialmente antes de desenvolverem um padrão de alimentação normal, o que sucede nos dias seguintes. Durante este período existe um risco levado de que os leitões adoeçam, que pode resultar numa recusa permanente da comida. Treinar os leitões antes do desmame com um uma ração atraente e de alta qualidade assegura facilitar a transição e reduzir o risco de complicações de saúde. O ideal é que os mesmos mecanismos de atratividade por sabor e aroma estejam presentes tanto na ração de consumo na maternidade, quanto nos dias que seguem ao desmame. Tudo isto para atenuar o instinto primitivo de precisar experimentar cada um novo alimento e aguardar seu efeito e segurança.
Acima de tudo, o que devemos assegurar é um manejo voltado ao menor período de jejum nos desmamados e termos consciência de sua natureza e hábitos de consumo, poderá ampliar nosso sucesso nesta fase tão desafiadora.
Também que a água executa um papel fundamental sobre as demandas sanitárias e nutricionais do suíno e que, principalmente quando vinculada à um momento de extremo estresse pós desmame, precisa ser gerenciada com precisão, agilidade e certeza de estarmos ofertando plena qualidade por meio da cloração e acidificação contínuas.
Busque conhecimento e esteja preparado para oferecer aos seus animais a melhor forma de alimentação neste período de tempo relativamente curto, mas que concentra uma fase de grandes mudanças e ajustes que impactam fortemente seu desempenho e retorno econômico.
Cotação semanal
Dados referentes a semana 23/01/2026
Suíno Independente kg vivo
R$ 7,83Farelo de soja à vista tonelada
R$ 1.900,00Casquinha de soja à vista tonelada
R$ 1.000,00Milho Saca
R$ 64,00Preço base - Integração
Atualizado em: 27/01/2026 09:55